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É profissional de internet desde 1996 e passou pelas maiores agências e empresas do país: Wunderman, AlmapBBDO, AgênciaClick, Banco Real ABN AMRO, Microsoft Brasil. É criador da \"Usina.com\", portal focado no mundo online, e do \"Radinho de pilha\" (www.radinhodepilha.com), comunidade de profissionais da área. E-mail: renedepaula@gmail.com
Sin Perder La Ternura Jamás
Sin Perder La Ternura Jamás - 22/01/2016
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Eu tenho a mania estranhíssima de me apresentar por uma longa lista do que eu não sou. O headhunter pergunta o que faço e eu começo: eu não sou comercial, eu não sou publicitário, eu não sou... e por aí vai, e entre as inúmeras coisas que não sou (designer, administrador, empreendedor, torcedor de futebol, bailarino, etc) a que mais nos interessa neste modesto artigo é essa: eu não sou desenvolvedor.

Sei lá por que eu faço isso, e sei que é bizarro. É que eu não sou... ups, lá vou eu de novo.
Pois bem, foco. Eu não sou desenvolvedor. Eu só tenho tanta coisa online (inúmeros sites e blogs e podcasts e artigos e fotos e tal) porque algum desenvolvedor criou alguma plataforma que eu fui capaz de instalar no meu servidorzinho. Até aí eu sei: crio uma base de dados, configuro isso e aquilo e pronto, já posso sair publicando meus delírios sem me preocupar com o que acontece nos bastidores, e a vida é bela até a hora em preciso me preocupar com o que acontece (ou deixou de acontecer) nos bastidores.

Aí o bicho pega.
O que pode acontecer nos bastidores? Desgraças não faltam. Alguém defaceia o teu site (palavra elegante pra dizer que alguém f...errou com a tua página), ou a plataforma que você escolheu saiu de moda e não tem mais suporte, ou algum update inocente pôs tudo a perder, ou (e isso aconteceu hoje) saiu uma versão nova e o upgrade é uma prova olímpica de salto de micos com obstáculos. Nessas horas é doloroso não ser desenvolvedor.

Hoje, depois de bater muita cabeça com o upgrade do drupal 7 para o 8 (nem queira saber do que estou falando, é um suplício), extravasei meus sentimentos razoavelmente tóxicos na sôchalmidja, na esperança de algum consolo.

"O iphone mudou o mundo porque foi o primeiro smartphone que não precisava de quinto dan de nerdice pra usar"

Como sempre, ouvi o que eu precisava e o que eu não precisava (o que parece ser inevitável hoje em dia) e um comentário foi mais longe: recebi um link para um curso online de introdução à programação.

A idade deveria ter me trazido mais serenidade, mais bonomia, mas o que eu percebo é um encurtamento paulatino do meu pavio. Se eu não respiro fundo, revido qualquer petardo com uma bomba nuclear num clique do mouse.


Pois bem: como o comentário veio de um bom amigo (desenvolvedor, por sinal), consegui desativar o DEFCON 4 e responder com sutileza. Escrevi algo assim: eu preciso aprender a desenvolver ou os desenvolvedores têm que aprender a ser user-centric?

(A resposta foi apressada. Se eu tivesse respirado mais fundo e esperado mais 0,8 segundos, uma eternidade, eu teria dito: ... ou os desenvolvedores têm que aprender a criar coisas minimamente usáveis?)

Pois bem: toda hora eu ouço alguém dizer que no futuro todos terão que ser developers. Ontem vi na TV mais uma escola ensinando a garotada a programar e a criar robôs. Hoje leio no jornal sobre crianças aprendendo os rudimentos da lógica computacional. Bárbaro, quisera eu ter tido uma infância assim, mas será que essa garotada vai construir coisas que os não-developers consigam usar? Ou vão cair na mesma armadilha mental que faz com que (pelo menos é o que parece) developers curtam fazer coisas impenetráveis, sem concessões ao leigo, em ambientes acessíveis somente aos iniciados?

Se eu estiver sendo injusto vou ficar feliz, porque isso seria sinal de que só eu no mundo encontro plataformas obscuras, instruções incompletas e crípticas, fóruns hostis a newbies, soluções que, para leigos, são problemas extras e não soluções.

Eu imagino que deva haver algum deleite em fazer parte da elite secreta dos iniciados e que deva haver algum prazer perverso em ver leigos apanhando nas coisas mais básicas, a natureza humana tem dessas coisas. Quantas vezes a gente não viu algum geek se gabar de usar algo que só meia dúzia de übernerds domina? Quem nunca viu um aluno de um curso de exatas "difícilimo" menosprezar a turma de humanas porque é "baba"?

(Uma vez divulguei que meu site havia sido atacado e levei um pito de um amigo dev porque eu TINHA A OBRIGAÇÃO de ter feito o update de segurança XYZ do meu drupal sete ponto nem sei o quê. Espero que no dia em que ele apanhar de um valentão e for parar num pronto-socorro o médico não lhe faça a desfeita de dizer que a culpa é dele por não ser faixa-preta).

Eu não quero que o futuro só seja bacana pra quem falar a língua das máquinas. O iphone mudou o mundo porque foi o primeiro smartphone que não precisava de quinto dan de nerdice pra usar.
Wordpress revolucionou a vida de quem publica porque é facinho de usar. Idem pra SoundCloud (adoro), Youtube, Tumblr, e por aí vai.

Claro que há developers que lêem o Não Me Faça Pensar do Steven Krug (http://amzn.to/1RdUAvB), claro, mas algo me diz que os robôs vão aprender antes dos devs teimosos como as pessoas funcionam.
Developers de mi corazón, reprogramem-se logo: hay que programar pero sin perder la ternura jamás.

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