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Pizza fundamental
Pizza fundamental - 26/04/2016
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Quando eu era garoto tinha uma lanchonete na Paulista chamada "O Engenheiro que Virou Suco". Passei em frente várias vezes, nunca entrei, mas eu deveria talvez ter prestado mais atenção no fato por trás do humor: num país onde há sempre o risco de tudo terminar em pizza é bem possível que o mercado te esprema a ponto de só deixar o bagaço, e deve ter sido isso o que aconteceu com o engenheiro do sumo de frutas: literalmente teve que transformar seu fracasso azedo em limonadas.

Outros sinais não faltaram: quando entrei na engenharia (a qual abandonei alguns anos depois) conheci um engenheiro muito bacana que tinha virado... pizza, e uma boa pizza por sinal. Entre um pedaço e outro da iguaria um dia lhe perguntei o que ele fazia da vida (além de me engordar, claro), e ele contou que estava fazendo uma pós em Epistemologia do Planejamento Urbano. Claaaro que aos vinte anos eu não tinha a mais puta da ideia de que diabos era aquilo e certamente repliquei com algo profundo como "ah, legal" e continuei a trucidar a outra parte mais palatável da sua carreira, provavelmente margherita.

Pois bem, hoje eu sei mais ou menos o que ele estava estudando, são os benefícios da idade, idade que também trouxe coisas não tão bem-vindas como a dura consciência do poder calórico da mozzarella aliada a farinha e azeite. Epistemologia estuda os fundamentos de uma disciplina, é isso.

Um urbanista, por exemplo, precisa ter fundamentos claros pra poder planejar uma cidade, sobretudo (ao menos pra esse meu artigo aqui) fundamentos sobre como as pessoas funcionam e o que as torna mais felizes. Se o urbanista acredita que a felicidade está na igualdade absoluta ele vai propor um conjunto habitacional gigante e homogêneo, mas vai bater de frente com colegas que acham que a felicidade está na convivência comunitária e aberta, ou com quem acha que a felicidade está no núcleo familiar e danem-se os outros. Cada um desses profissionais vai construir cidades distintas, e é por isso que Brasília é diferente de São Paulo que é diferente de Los Angeles que é diferente de Paris: cada cidade dessas partiu de um pressuposto diferente do que é desejável para as pessoas.

Robert Moses, urbanista americano, sonhava com um futuro onde o automóvel era a promessa realizada da liberdade individual, enquanto Jane Jacobs pregava que cidades saudáveis são aquelas onde as calçadas são cheias de pedestres circulando alegremente. Eu sou do time da Jane, desde pequenininho, cresci no centro.

(Reza a lenda que a Cidade Universitária da USP foi construída daquele jeito, com prédios super isolados separados por gramados intermináveis porque a ditadura queria dificultar qualquer mobilização estudantil e naqueles gramados sem fim não tem nem pra onde correr. Lenda ou não, nada é neutro nunca).

Esses dias conheci um gringo brilhante, com uma carreira e talentos absolutamente invejáveis. O cara é um dos pioneiros dos Smart Contracts baseados em blockchain (veja essa startup aqui: http://slock.it ), e ao final da sua palestra eu perguntei sobre o possível uso dessas inovações em coisas não muito louváveis como contratos de assassinato, narcotráfico, etc. O cara não se abalou e disse que sim, eram usos possíveis. Perguntei então como ele imaginava o uso de blockchain para a redução da corrupção no mundo, e ele também não se abalou: sim, é um uso possível.

Nem sei por quê eu ainda insisto em perguntar essas coisas ou por quê bato tanto nessa tecla em artigos, palestras, podcasts... aparentemente a reflexão sobre ética, sobre impacto social, sobre responsabilidade, sobre os fundamentos do que nos faz ou não melhores é algo desinteressante, algo que não é dever de quem cria tecnologias e as lança na mão de todo mundo. É como se isso fosse algo "subjetivo" demais e coisas subjetivas fossem algo irrelevante, algo que se discute e discute sem chegar a conclusão alguma.

Se você nunca parou pra pensar no que fundamenta o que você faz e como você faz o que faz, talvez esteja na hora de pensar a respeito: há inúmeros futuros possíveis, e nem todos são desejáveis. Se você não quiser parar pra pensar é porque, sem saber, tem como fundamento que a vida é uma selva e que cada um que se vire por conta própria, como naquele filme do Herzog, Kaspar Hauser - Jeder Für Sich Und Gott Gegen Alle, cada um por si e Deus contra todos.

Não viu o filme? É de um diretor que acha que cinema serve para reflexão e crítica, não só pra adrenalina e testosterona e bilheterias milionárias. Até cinema tem fundamentos, claro.
Lembrei-me, aliás, que o cineasta Coppola tem uma ótima pizzaria em San Francisco. Não deixe de ir, é fundamental.

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