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É profissional de internet desde 1996 e passou pelas maiores agências e empresas do país: Wunderman, AlmapBBDO, AgênciaClick, Banco Real ABN AMRO, Microsoft Brasil. É criador da \"Usina.com\", portal focado no mundo online, e do \"Radinho de pilha\" (www.radinhodepilha.com), comunidade de profissionais da área. E-mail: renedepaula@gmail.com
Me chama de Cassandra
Me chama de Cassandra - 03/10/2016
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Calma, calma... eu quero sim fazer uma confissão aqui mas não é nada escandaloso, a minha identidade sexual vai bem, obrigado. Acho que para explicar direito vou ter que voltar à Grécia Antiga e... calma, calma, não é pela razão que você imagina.

Pensando bem, a história envolve sexo sim, mas #sóquenão: Apolo, um deus grego especialmente suscetível aos encantos das jovens mortais mais gostosinhas, se apaixonou pela bela Cassandra, o que é um modo elegante de dizer que ele queria traçar a moça. Cassandra, se não me engano, era uma virgem vestal, daquelas que ficam no templo fazendo sabem deuses o quê e Cassandra não cedeu (ou se deu) ao moço não.

Apolo #magoou e rogou uma praga meio estranha: Cassandra seria capaz de prever o futuro, mas ninguém jamais acreditaria nela. Pois é, foi uma praga estranha, mas ninguém acreditou mesmo. A moça previu guerras, desgraças, mas ninguém nem deu bola.

O resto da história envolve a Guerra de Tróia, heróis, peripécias literalmente homéricas, mas isso não vem ao caso. O que me interessa mesmo é a tal da praga.

Apolo blefou. Ele não amaldiçoou ninguém, nem precisava. Não precisava porque, com ou sem praga ou Cassandra ou Apolos, ninguém leva em conta alertas e avisos e chamamentos à razão e fotos pavorosas em caixinha de cigarro ou livros do Al Gore. A humanidade ignora as Cassandras olimpicamente.

Eu sou uma Cassandra, pelo visto. Há anos e anos venho subido no banquinho pra chamar a atenção da galera pra um moooonte de coisas preocupantes mas... nada. Um cumprimento aqui, um like ali, um elogio acolá, mas essa saga de apontar riscos, perigos, distorções, malandragens, oportunismos, hypes acabou me custando uma outra praga helênica: o ostracismo. Não só fui perdendo visibilidade online (e não me venham com a lorota de long tail) como também fui sumindo dos palcos e eventos por aí. Com a indústria capotando em câmera lenta (eu avisei...) nenhum patrocinador vai querer uma Cassandra questionando hypes e pseudo-tendências e neogurus do mercado. Amigos bem-intencionados tentaram me alertar do risco, mas acabaram sendo Cassandras eles mesmos, e eu não os levei a sério.

Claro, otimismo é fundamental, otimismo inspira, otimismo é um catalisador de coisas novas e eu sempre fui um otimista. Continuo sendo, aliás, mas talvez por coisas menos populares e mais trabalhosas como cultura, educação, impacto social, transparência e tal, e talvez parte do meu pessimismo venha disso, de ser forçado a admitir que aquilo que me inspira é absolutamente minoritário e nichado.

Esse meu pecado original (opa, finalmente algo que não é grego) meio messiânico de achar que a Humanidade estava ansiosa por ser salva da tirania do lixo cultural da comunicação massiva (desculpe, fiz ECA) ficou patente e patético quando a própria Humanidade, por livre e espontânea falta de melhores vontades, começou a produzir de maneira massiva seu próprio lixo cultural. O que eu chamava arrogantemente de lixo cultural não era algo perverso criado por vilões gananciosos, era o que realmente mobilizava gregos e troianos. Meu sonho universal só interessava mesmo ao nicho do nicho. Errei.

Claro, claro, estou carregando nas tintas, a situação não é tão trágica assim. Estamos todos mais felizes do que nunca e nunca se leu nem se publicou tanto, e pela primeira vez na história humana todas as pessoas têm mais razão que todas as outras. É um milagre, e eventos vivem lotados de gente atrás de novas mitologias e deuses e adivinhos, todos confortavelmente sentados em cima dos problemas que não querem enxergar. O problema sou eu que insisto em falar grego.

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