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É profissional de internet desde 1996 e passou pelas maiores agências e empresas do país: Wunderman, AlmapBBDO, AgênciaClick, Banco Real ABN AMRO, Microsoft Brasil. É criador da \"Usina.com\", portal focado no mundo online, e do \"Radinho de pilha\" (www.radinhodepilha.com), comunidade de profissionais da área. E-mail: renedepaula@gmail.com
Danem-se as Marcas
Danem-se as Marcas - 25/06/2015
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Imaginei que fosse um elogio. Se meu chefe insinuou que eu era um maverick, só podia ser um cumprimento. Maverick, pra mim, era um carrão da minha adolescência, oito cilindros em V, um prodígio mecânico representado no capô por um garanhão empinado. Minha autoestima cresceu com a comparação viril. Fui ver no dicionário (adoro dicionários) e descobri que alguém é chamado de maverick quando é independente, arrojado, indomável. Fiquei mais lisonjeado ainda.

Well, a história não é bem essa. Nos tempos do velho oeste americano havia cowboys, boys que cuidavam de... cows. Pois bem: como não havia como cercar aquele coletivo bovino (ainda não tinham inventado o arame farpado), o único jeito de impedir que as cows de um se misturassem às vacas do outro (o tipo de problema que pedia um Colt 45) era... marcar as vacas a ferro e fogo.

Adivinhe como se chamava essa crueldade: branding.
Pois bem. Um pecuarista não muito esperto chamado... Maverick não tinha esse cuidado e deixava as suas vacas soltas sem branding nenhum. Resultado? Quando um cowboy via uma cow sem branding nenhum, pensava: maverick.

Pronto, lá se foi o romantismo, os alazões, os motores reluzentes. Maverick é uma vaca solta. Pra completar, branding devia doer pra burro (mais ainda pra vaca).

Eu sei que para publicitários branding é outra coisa, mas eu não sou um publicitário. Na verdade, não sei bem o que sou depois de ter feito tanta coisa diferente. Acho que virei uma dessas vacas soltas sem marca nenhuma, uma maverick desgarrada. Talvez.

E talvez por isso eu tenha tanta dificuldade em simpatizar com toda a babação de ovo em cima de marcas. Empresa é algo que eu entendo, produto é algo que eu entendo, serviço é algo que eu entendo, mas marca pra mim é algo que beira o xamanismo, o sobrenatural, o animismo, e eu não sou um adepto de sobrenaturalidades. Para piorar, todo especialista em branding pronuncia a palavra "marca" com uma gravidade e veneração digna dos grãos-sacerdotes de Amon, Ishtar, Baal ou qualquer outra divindade exótica com poder de vida e morte.

Preste atenção: depois da palavra sagrada "marca" há uma pausa teatral e um leve alçar de sobrancelhas. Mentalmente eu ouço um "ohhhhh" vindo de um coro de virgens vestais.

Na boa, não. Tenham dó. Pessoas existem. Empresas existem. Produtos existem. Por que ninguém fala de povos, governos, cidades, comunidades, idiomas, culturas com a mesma veneração e gravitas que reservam pras tais das "marcas"? Por que publicitário se sente elevado a um plano superior de sentido e propósito quando invoca a magia do branding? Por que clientes dão carta branca e tanta grana pra ações de branding que só visam ganhar Cannes? Por que tantos cérebros privilegiados e verbas fabulosas perdem tempo com esse culto mitológico ao invés de, melhorar produtos e serviços e assim por tabela a vida das pessoas?

Well, logo se vê que não sou publicitário. Se você for, não perca seu tempo comigo, desenCannes :-)

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