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É profissional de internet desde 1996 e passou pelas maiores agências e empresas do país: Wunderman, AlmapBBDO, AgênciaClick, Banco Real ABN AMRO, Microsoft Brasil. É criador da \"Usina.com\", portal focado no mundo online, e do \"Radinho de pilha\" (www.radinhodepilha.com), comunidade de profissionais da área. E-mail: renedepaula@gmail.com
Assim Falava o Uber Mensch,
ou: Muito Aquém do Bem e do Mal - 07/11/2016
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Eu já vou falar do Uber, juro, mas me acompanhe por favor nessa viagem cósmica na maionese.
O Universo, dizem os físicos, tende inexoravelmente ao fim de festa. Tudo esparramado, luzes apagadas, garrafas vazias e bitucas e copos largados ao acaso, fedor de cigarro e cerveja e vinho... Você sabe como é, só não sabia que a cena melancólica é um corolário da implacável segunda lei da termodinâmica, da tirania da senhora Entropia.


Sonhe o que quiser sonhar, esperneie o quanto quiser, mas a cartada final é da Madame Entropia, que só vai ficar feliz quando o baralho não for mais do que confete espalhado pelo salão escuro. A alegria da entropia é que tudo termine num mingau gelado.

Intrigante.... Se físicos têm tanta convicção de que tudo vai para o saco, por que eles ainda fazem festas? Eu me lembro de algumas memoráveis, se bem que saí antes do final (sim, a Cinderela aqui dorme cedo).

Colocando em outros termos, se tudo tende ao nada, por que temos alguma coisa, sobretudo coisas boas como um planeta bonitinho, com flores e frutas e pessoas interessantes pra conhecer em festas e drinks para facilitar as coisas? Como se explica que meu nariz insiste em ser assim (e não algo mais helênico) depois de cinquenta anos? Como surge ordem e estruturas e padrões e criaturas e cultura e boatos persistentes sobre o que rolou na festa?

Por essas e outras venho lendo um monte de livros estranhos sobre Teoria do Caos, Teoria da Informação, Física Quântica e outras maluquices, onde aprendi ao menos uma coisa: falta um universo inteiro de coisas cabeludas para aprender.

Também aprendi (acho que sim, pelo menos) outras coisas interessantes: o sopão insano de energia, o zoológico invisível de partículas só se dá ao luxo de virar alguma coisa estruturada se estiver tudo tranquilo e favorável. Esquentou um pouquinho, a festa começa, esquentou demais passa do ponto. Se não esquentar, então, esquece, pára tudo. É mais ou menos como as festinhas por aí, e se te convidarem pra uma balada na friaca de Plutão ou na canícula de Mercúrio, sugira um lugar no meio do caminho, tipo aqui.

Ok, igualar festas a "ordem" é contraditório, exceto na Coreia do Norte. Festas, assim como o clima, como os mares, como as cidades, empresas e famílias (alheias, claro), são sempre meio caóticas, são complexas, e aí a Teoria do Caos talvez ajude (ou terapia, ou Cumbica). O bacana da complexidade é que por mais que tudo seja "meio caótico", o caos aparente tem um certo padrão.

O clima, por exemplo, é muito difícil de prever, embora ainda haja invernos e verões e primaveras e (dizem, nunca vi) outonos. Famílias podem ser turbulentas e malucas, mas depois de alguns anos (se você não fugiu com o circo, #ficaadica) o padrão se repete até você enlouquecer.

Isso acontece porque, se não mudarmos muito as condições gerais, se não chucharmos ou drenarmos energia do sistema, o tal do caos se comporta direitinho e se contenta em caotizar dentro dos limites. Se introduzirmos alguma novidade (aquecimento global, ou um namorado com piercing), o sistema inteiro pode pular, sem aviso prévio, para um novo patamar de caos, e a festa (e o próximo natal, inclusive) pode ficar esquisita.

Em suma: as coisas se estruturam do jeito que dá, mas não pra sempre. Mude um settingzinho aqui, outro ali e bum, tudo muda de repente as coisas vão se organizar de outro jeito. Ou não.
Minha tese é: alguns settingzinhos no nosso mundinho digital mudaram, e as estruturas que a gente demorou tanto pra construir estão virando fumaça. Melhor: estão virando plasma.

Plasma é pior que ectoplasma dos Ghostbusters, que pelo menos é verde e brilha no escuro. Plasma é pior que gás, porque ao menos gás tem átomos felizes e contentes ocupando todo o espaço e escapando involuntariamente no elevador criando situações embaraçosas. Plasma não tem nem átomos, plasma é aquela festa em que ninguém é de ninguém, elétrons mais soltinhos que arroz de mãe, prótons e nêutrons dançando sem par.

Curiosamente, plasma é o que mais tem no universo, essa história de tudo ajeitadinho e comportado em átomos, moléculas e química é um luxo raro.

Eu vou chegar no Uber, prometo. Faltam uns dois mil anos só.

Hoje no almoço me emocionei ouvindo a história de Epicuro num audiolivro bárbaro sobre a História da Civilização (sim, o CDF aqui ouve audiolivros cabeça no almoço). O grego Epicuro acreditava firmemente que tudo no mundo, do iogurte (grego) ao sol e à lua, era feito não de coisas mágicas ou sobrenaturais, mas sim de inúmeros átomos de tamanho, peso e forma diferentes, átomos em movimento se combinando e recombinando numa dança sem fim. Fiquei comovido, pois baseado nisso Epicuro criou uma filosofia de autonomia, plenitude, potência e beleza. Detalhe: os caras intuíram isso faz mais de dois mil anos.

Sim, sim, a ideia não funcionou, parece que o além dá mais ibope. Mas enfim.
Eu acho que esses gregos tiveram essas ideias incríveis porque viviam em cidades inéditas que se organizaram de maneira revolucionária, a democracia, esse bicho meio indócil mas livre, composto não de figuras divinas ou de estruturas engessadas mas de átomos humanos, átomos de ideias, todos se combinando e recombinando e criando maravilhas. Não durou muito, claro, os caras se cansaram da perguntaiada do Sócrates e mandaram o velhinho beber veneno, castigo pra quem se atrevia a questionar os deuses. Nasci em tempos mais brandos, felizmente.

A festa grega durou pouco mas somos por tabela todos filhos dessa suruba épica de ideias.
Não é sempre que a humanidade consegue isso, ter as condições ideais pra que os átomos humanos se combinem em formas espetaculares. Mal Roma acabou e o mundo mergulhou na quizomba, ninguém sabia mais nem como consertar a descarga. Veio a Belle Époque mas a Primeira Guerra atropelou e matou. Picasso e Hemingway e Joyce e Pound começaram uma primavera em Paris mas Hitler tinha outros planos. A internet nasceu livre e exuberante e plural e o que era uma galáxia em expansão se condensou em dois buracos negros chamados Facebook e Google e algumas poucas estrelas (de)cadentes. Volta e meia o que parecia ordem e progresso descamba e tudo vai pro brejo, até que em algum lugar propício as coisas se acelerem de novo.

Sim, as coisas andam tão estranhas que parece que tudo gira em torno não mais de grandes ideias, grandes grupos, grandes projetos, mas em torno dos indivíduos e seus umbigos, protegidos pelos seus fones de ouvido e escondidos atrás de telinhas. Pensando bem, a palavra indivíduo acho que vem de indivisível, assim como a palavra átomo, que em grego quer dizer indivisível.

Pois bem: átomos não são indivisíveis e indivíduos tampouco. Hoje estamos todos na vitrine (do Instagram, do Tinder, dos sites de frilas, dos sites de empregos) não como pessoas com vida e projetos e histórias, estamos ali como partes pra feijoada. Ninguém te compra inteiro nem pra sempre, só querem um pedacinho e por algum tempo e se possível de graça. O Uber só precisa de motoristas porque o carro autônomo ainda não está pronto, e enquanto isso ele faz deles gato e sapato. À medida em que tudo vai se uberizando (de médicos a advogados a namoradas e professores e designers e redatores e jornalistas), vamos todos virando uma geléia indistinta que só faz sentido, que só está organizada e rotulada e precificada dentro de apps.

Num mundo uberizado, somos todos commodities, secos & molhados orbitando a esmo meia dúzia de buracos negros. Claro, uma hora vai surgir uma nova maneira de se estruturar e de viver e de conviver de maneira fecunda, e se eu descobrir alguma saída dessa entropia besta eu aviso. Prometo, enquanto isso, continuar sendo essa boa e velha incommodity.

P.S.: o título Uber Mensch é um trocadilho bobo com Übermensch ou super-homem do Nietzsche. Que diferença faz um trema.

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