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É profissional de internet desde 1996 e passou pelas maiores agências e empresas do país: Wunderman, AlmapBBDO, AgênciaClick, Banco Real ABN AMRO, Microsoft Brasil. É criador da \"Usina.com\", portal focado no mundo online, e do \"Radinho de pilha\" (www.radinhodepilha.com), comunidade de profissionais da área. E-mail: renedepaula@gmail.com
Iceberg, lado B
Trabalhar com digital tem seus percalços - 07/05/2015
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Quando o computador dos familiares pifa, de quem eles se lembram? De você. Quando a geração anterior não resiste, abre um powerpoint açucarado e pega um vírus, quem eles chamam? Você. Quando seus amigos empresários precisam refazer o site, para quem eles ligam? Para você.

Peraí, por que em pleno 2015 empresas precisam da minha ajuda para fazer um site? Houston, we have a problem. Ou uma oportunidade.

Digital é feita de zeros e uns: uns que sabem se virar e muitos que entendem zero dessa história. Décadas passaram e esse abismo parece ter aumentado: de um lado profissionais de olho na vanguarda do digital e do outro uma multidão desamparada engatinhando às cegas sem ter quem lhes dê a mão. Pra piorar, a hora em que essa fome encontra com a vontade de comer, no momento em que os clientes 1.0 pedem ajuda aos profissionais 4.0... é um fiasco. É o que eu tenho visto, pelo menos.

Eu vi outro dia desses uma série de propostas para uma demanda simples, a refação de um site institucional. Os orçamentos variavam de X a 10X, e sem muita clareza sobre por que era tão caro ou tão barato. Eu digo "clareza" porque entupir um ppt com jargão e chavões e siglas que o cliente não entende não explica nada, só complica. Adivinha pra quem a dona da empresa ligou? Pra mim.

Não, não faltou clareza no briefing do cliente. Eu vi. O cara pedia o básico do básico: um site atraente que funcionasse em mobile e fosse bom em termos de SEO. OK, o cara não falou SEO, falou em buscas do Google. Quando eu olhei o briefing e comparei com as propostas todas, eu perguntei: por que vocês não usam wordpress? Batata: não tinham ideia do que é wordpress. Não tinham ideia, tampouco, que muitas daquelas propostas deveriam ser wordpress disfarçados. Não imaginavam também que podiam pilotar sozinhos um wordpress decente, publicando e melhorando e experimentando sem ter que depender de ninguém. Nenhuma proposta falava disso.

Agora vem a melhor parte.
No finalzinho da nossa conversa o cliente desabafou: não conseguimos achar uma agência que nos ajude naquilo que precisamos. Eu sorri pensando nos inúmeros artigos que publiquei nesta revista sobre esse descompasso perpétuo.

Eu expliquei pro rapaz que agências mais tradicionais, essas que o cliente sabe como encontrar, só apresentam como solução aquilo que resolve a vida da agência, e não a do cliente. Ninguém vai oferecer para ele algo que não dê dinheiro fácil pra agência, e vão oferecer sim anúncio impresso, filme de televisão, etc. Expliquei também que digital dá cada vez mais trabalho e cada vez menos lucro, e que mesmo as agências mais moderninhas apanham pra pagar as contas.

(Por favor, antes que você saia feito louco pra descobrir meu email e oferecer os serviços espetaculares da tua agência, deixa eu te contar uma outra história real, desta vez com um cliente maior ainda.)
Por um breve período eu tive o papel de abrir portas para uma agência moderninha. Eu não sou um cara comercial, não sou vendedor, mas como conheço bastante gente achei que podia ajudar.

Um velho amigo, executivo de uma empresa premiadíssima, topou me escutar. Fui até lá com o maczinho branquinho da agência e um keynote bombástico debaixo do braço e meu amigo me disse: "nem precisa abrir". Eu fiquei desconcertado.

"Só me responde uma coisa", ele disse. "Vocês são Bozo? Todo dia vem agências aqui com macs branquinhos e keynotes maravilhosos, mas é tudo Bozo".

Bozo, pra quem não assistiu e não tem pesadelos até hoje, era um palhaço medonho do SBT.
Eu garanti que não éramos palhaços. Não perguntei depois pra ele qual foi sua opinião final. Melhor assim.

Em suma: temos um problema. De um lado clientes cansados de agências que só pensam na própria sobrevivência e do outro... peraí, talvez seja melhor pensar não em dois lados opostos, mas em dois universos que mal se tocam: a ponta do iceberg, reluzente e ensolarada, e a massa enorme de gelo abaixo d´água e que ninguém enxerga.

Eu já conheci empreendedores que navegam muito bem no negócio digital simplesmente porque desencanaram de correr atrás da ponta do iceberg (clientões, multinacionais, contas gigantes de mídia) e mergulharam para atender o mundaréu de empresas que precisam de algo bom, bonito e barato. Um desses caras eu até entrevistei, de tão intrigado que eu fiquei com seu sucesso. O cara tinha centenas de clientes no Brasil todo e não parava de crescer. Ganhou Cannes? Apareceu no Proxxima? Não, mas vai de vento em popa, obrigado, atendendo empresas que ainda precisam de alguém que as conduza pela mão nos caminhos do digital e as ajude a crescer.

Esse empreendedor achou um caminho, deve haver outros. Ponha-se no lugar de uma empresa pequena, que não tem grana pra torrar, que não tem gente sobrando pra cuidar do que não vale a pena, e pense no que ela poderia comprar de você. Não vão ser métricas inúteis, conteúdos que não se pagam nem fees mensais que não se justificam. Se você descobrir um jeito de atender esses caras, parabéns, tem um montão deles abaixo dessa espuma toda que nos deslumbra.

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