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É profissional de internet desde 1996 e passou pelas maiores agências e empresas do país: Wunderman, AlmapBBDO, AgênciaClick, Banco Real ABN AMRO, Microsoft Brasil. É criador da \"Usina.com\", portal focado no mundo online, e do \"Radinho de pilha\" (www.radinhodepilha.com), comunidade de profissionais da área. E-mail: renedepaula@gmail.com
Você pensa que eu sou o quê?
Pensando bem, não responda não. - 30/03/2015
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Pensando bem, não responda não. Minha autoimagem não anda assim tão sólida a ponto de levar pedrada à toa, sobretudo se você me imagina muito melhor do que eu realmente sou. Deixemos tua opinião a meu respeito pra outro momento.

Essa pergunta eu poderia fazer pro facebook, que pelo visto me julga muito mais carente, fútil e desocupado do que devia. Toda vez que o robozinho do facebook escolhe uma barbaridade ou tolice pra me mostrar eu me lembro de gatos que, pra te agradar, te trazem uma barata morta. Não, obrigado, não é disso que eu gosto.

A questão é que todo projeto, todo produto, toda ferramenta pressupõe uma certa visão de como funcionam as pessoas. É só pensar em algo prosaico como roupas: uma fashion week pressupõe que indivíduos precisam demonstrar sua absoluta originalidade através de roupas extravagantes, enquanto a roupitcha chinesa dos tempos do Mao TseTung partia do princípio que individualidade é um perigo, e ser feliz é ser mais uma abelhinha na colmeia. Veja a China hoje comprando Louis Vuitton que nem louca e pense no Mao se revirando no túmulo.

No mundo digital é a mesma coisa. Eu me lembro de ter participado de um projeto colaborativo 2.0 e blábláblá criado na Finlândia, onde consumidores super bonzinhos se engajavam numa gamification bastante ingênua, simbolizada por abelhinhas e florezinhas delicadas. Eu olhei aquilo e pensei: aqui no Brasil vai dar M. Os finlandeses estavam pressupondo uma cultura inocente e bem-intencionada, e na hora que abrissem os portões pra galera brazuca, ia ser uma orkutização geral e digo isso não por preconceito ou pessimismo (embora eu ande pessimista mesmo): digo isso porque culturas são diferentes, muito diferentes. O que funciona em São Paulo talvez não funcione no Rio, e vice-e-versa.

Construa uma plataforma focada nas nossas fraquezas e pronto, os usuários vão ficar pendurados nela o dia inteiro


Todo design parte de alguma pressuposição sobre como pessoas funcionam. Se você não parou pra pensar nisso, agora é uma boa hora pra começar.

Você já deve ter visto por aí o UomoVitruviano do Leonardo da Vinci. Sim, o desenho é lindo e sim, o cara está em boa forma, mas tem mais aí. Essa obra grita pra quem quer ouvir: o homem é o centro de todas as coisas, a medida de todas as coisas, e nada é mais belo do que uma mente sã num corpo são.
Ela grita equilíbrio, harmonia, racionalidade, beleza, perfeição.

O Da Vinci e mais um monte de gente brilhante do Renascimento estavam ressuscitando os ideais gregos e romanos, tentando enterrar pra sempre a superstição e a burrice. A crença de que a racionalidade e a ponderação deveriam iluminar o mundo é a alma do Iluminismo. Livre-arbítrio, liberdade, sensatez.

Well, não preciso dizer que não funcionou tão bem assim. Claro, temos agora ultrassom e ressonância magnética, web e democracia, mas os últimos cem anos foram um festival de barbaridade. Mesmo assim, eu ainda não desisti. :)

O Google, na minha modesta opinião, nasceu iluminista. Ele pressupõe que indivíduos racionais têm perguntas e buscam pela melhor resposta, e o papel do Google é ajudar esses cidadãos pensantes a satisfazer essa vontade. O Google pressupõe que o mundo é feito de Spoks, e construiu um império em cima disso.

E um dia surge o facebook. Se o facebook deu tão certo é porque ele se tocou de um detalhe fundamental: só somos racionais umas três vezes por dia e estamos mais pra Homer Simpson do que pro UomoVitruviano. Mais outra sacada: vontades racionais se saciam e pronto, mas desejo... desejo é insaciável. Carência é insaciável. Curiosidade é insaciável. Construa uma plataforma focada nas nossas fraquezas e pronto, os usuários vão ficar pendurados nela o dia inteiro, pedalando de graça a bicicletinha do Mark.

O Mark está errado em pressupor que somos fracos? Não. O Google errou ao imaginar que só a racionalidade basta? Sim. Isso significa que devemos jogar o Iluminismo pela janela e explorar ainda mais nossas fragilidades? Eu, cada dia mais sozinho nessa saga, digo que não.
Eu parto do princípio que somos capazes de maravilhas e barbaridades, e tudo é uma questão de contexto, e contextos se criam, contextos se desenham, contextos se constroem. Construa uma cidade digna e a urbanidade floresce. Construa um espaço aviltante e saia correndo pra escapar do resultado.
Irracionalidade dá ibope. Frivolidade dá dinheiro. Se você acha que é pra isso que a humanidade veio ao mundo, vá em frente... mas não me convide. Eu ainda insisto nessa luta quixotesca por algo menos bobo.


(http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Uomo_Vitruviano.jpg)

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