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É profissional de internet desde 1996 e passou pelas maiores agências e empresas do país: Wunderman, AlmapBBDO, AgênciaClick, Banco Real ABN AMRO, Microsoft Brasil. É criador da \"Usina.com\", portal focado no mundo online, e do \"Radinho de pilha\" (www.radinhodepilha.com), comunidade de profissionais da área. E-mail: renedepaula@gmail.com
Uns sim, uns não
Uns sim, uns não - 27/06/2016
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A BBC tem um programa de rádio clássico, genial, chamado Desert Island. A ideia é simples: se você fosse viver numa ilha deserta, seja por castigo ou opção, que disco levaria? Well, logo se vê que o programa é antigo, do tempo em que música vinha em discos e uma coleção de discos era um tesouro construído com afinco e carinho. Hoje música é como água, você abre a torneira e ela escorre pelo ralo fazendo uns barulhinhos. Foi-se o tempo em que música a gente segurava com os dedos.

Se me convidarem para um equivalente literário do Desert Island acho que sei que livro levar. Já tive que fazer essa escolha uma vez e, entre tantos livros que deixei para trás, trouxe comigo o magnífico Beautiful Evidence do Edward Tufte. A capa é um primor, veja só.





Esse livro é uma coleção de exemplos maravilhosos de visualização de informações e traz exemplos deslumbrantes de todas as eras e é um deleite pra minha alma faminta. Recomendo fortemente.

Lembrei desse livro hoje nem tanto pela questão estética nem por lembranças de vida, mas sim por uma pérola na página 138, onde ele apresenta a conclusão desconcertante de um estudo que analisou, comparou e destilou mais de 1000 trabalhos sobre a natureza humana. As conclusões são três:



1. Alguns sim, alguns não.
2. As diferenças não são tão grandes.
3. É muito mais complicado do que isso.


Well, não sei quanto a você, mas eu adorei. Toda vez que eu me irritar com a humanidade ou que eu me exasperar com as idiossincrasias dessa ou daquela cultura ou com as manias de um e de outro, vou beber de novo nessa fonte de sabedoria e fazer as pazes com a tal da condição humana.

Querer que as pessoas não sejam um saco de gato de incongruências e incompletudes, querer que sejamos imagem de um ideal perfeito é coisa de tiranos, seja da direita (não preciso citar nomes) ou da esquerda (que sempre sonhou com o tal do homem socialista). A gente somos isso aí, e pronto.

Eu ainda insisto na minha tese antiga de que tecnologia só nos transforma até a página 3, e que na verdade somos nós que adotamos tecnologias à nossa imagem e semelhança. Quando não conseguimos fazer isso, deixamos a tal inovação às moscas.

Ou você acha que o pai do whatsapp tinha ideia do que íamos fazer com a app dele? Demos um nó no zapzap e fazemos o diabo com ele. Idem pro facebook, pro Bombril que vira antena, pra Coca-Cola que desentope pia. A gente diz "adotar" uma tecnologia porque tecnologias são meio órfãs mesmo, e o pai dela somos nós que as educamos.

Lembrei dessa história de adoção de tecnologias ao ler uma entrevista com algum colega do prefeito da minha cidade (a quem dedico um desprezo sonoro e imorredouro) dizendo que algumas inovações da prefeitura são alvo de crítica porque a população não teve o tempo necessário para absorvê-las. A culpa é nossa, enfim, por não estarmos à altura do brilhantismo e criatividade de quem, pelo visto, acha que design thinking é ficar pensando que é designer.

Eu confesso que me apaixonei pelo digital há 20 anos porque imaginei que isso curaria a sociedade de todos os seus males. Pior: achei que esse meu sonho revolucionário fosse democratizante, sem perceber o quanto o tal sonho era mais uma utopia à revelia alheia, mais uma cura milagrosa para os que não se acham doentes. A internet caiu na mão de todos e, confirmando a minha tese que eu mesmo não tinha entendido tão bem, todos fizeram e fazem da internet o que bem lhes apraz enquanto eu, discretamente, enfio o meu sonho iluminista no saco.

Quem, afinal, se interessa pelo meu ideal de modus vivendi? A julgar pelas métricas de tudo o que eu produzo, essa turma cabe num ônibus.

Designers, criadores, empreendedores, deixemos as vaidades de lado e tenhamos a mesma modéstia do jornalista que sempre soube que, no dia seguinte, o resultado do seu trabalho embalaria um peixe fresco. Estamos aqui para servir, servir bem para servir sempre.

OK, é muito mais complicado do que isso, mas as diferenças não são tão grandes.

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