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É profissional de internet desde 1996 e passou pelas maiores agências e empresas do país: Wunderman, AlmapBBDO, AgênciaClick, Banco Real ABN AMRO, Microsoft Brasil. É criador da \"Usina.com\", portal focado no mundo online, e do \"Radinho de pilha\" (www.radinhodepilha.com), comunidade de profissionais da área. E-mail: renedepaula@gmail.com
Espelho, espelho nosso
Como diria Galileu Galilei... - 19/12/2016
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Há uns bons vinte anos eu tive um chefe que adorava impressionar os clientes com um computador poderosíssimo que, na verdade, nem era nosso, era emprestado. O colosso digital era um Silicon Graphics, nome mítico que antes suscitava um wooooow nérdico mas que hoje provoca um "ahn?".

Ninguém sabia usar aquela coisa, o máximo que a gente fazia era clicar num ícone e abrir a maravilha das maravilhas: uma webcam. Woooooow de novo, embasbacamento indisfarçável diante de um vídeo miraculoso mas minúsculo e tosco pros padrões smartphônicos de hoje.

Um colega mais sarcástico um dia soltou essa:
- Este é o espelho mais caro do mundo.

Pois é, o tal Silicon Graphics só serviu pra alguns prospects ajeitarem o cabelo.
Faz vinte anos isso, e o que vejo nas minhas telas também é um espelho, talvez o melhor espelho que já tivemos. O espelho do banheiro não conta, ele vem me enganando há décadas e basta uma foto impiedosa pra por por terra minha ilusão de que os tais vinte anos não passaram.

Em algum momento desses vinte anos eu disse: nós adotamos a tecnologia à nossa imagem e semelhança. Profundo, não? Na época devo ter dito isso sorrindo, porque eu imaginava algo mais bacana da tal da nossa imagem. Hoje, basta um scrollzinho nas timelines por aí para perceber que eu estava sendo generoso demais. A gente é isso aí, a gente só quer ver coisa boa, a gente quer fechar os olhos para o que não quer ver, a gente quer achar que a gente é muito legal e que tudo faz sentido. E, como já dizia o Norman, não me faça pensar.

É isso aí. Errado estavam os iluministas, positivistas, reformistas, otimistas, idealistas e demais românticos que esperavam algo diferente de todos nós, algo que não só não somos capazes de dar nem queremos dar. O que a gente quer é isso o que temos. A tal da "indústria cultural" malévola, os tais monopólios maquiavélicos de mídia, todos eles estão de quatro pastando a grama rala que sobrou depois que nós, consumidores-produtores da nossa própria bobagem, pisotearmos a cena em manada. A revolução popular aconteceu, foi televisionada, youtubada, instagramada mas não tem cara de utopia nenhuma: tem a cara do pai, ou seja, a nossa cara.

Veja bem: isso não é uma crítica. A nossa cara é linda, pelo menos é o que todas as fotos de perfil parecem dizer. Estamos felizes, empoderados, populares e falamos o que der na telha. A vida finalmente é bela.

Well, defina bela. A minha versão 1.0 de bela, versão arcaica, greco-romana-judaico-cristã, ainda não é plug-and-play com Trumps, ISIS, Brexits e outros presentes estranhos do século XXI. Eu vejo o Trump alaranjado e pronto, me dá tela azul. Acho que preciso de algum driver novo. Meu medo é que pra atualizar o meu sistema operacional mental eu tenha que formatar o cérebro e perder tudo o que eu sonhei até agora. Os fatos são esses, a tal da pós-verdade é uma verdade e se eu procurar no Google se Obama é muçulmano, se o Holocausto é uma farsa ou se o Aquecimento Global é uma impostura, vou ter que me render às evidências que a mentira não só tem um Page Rank excelente como gera um engajamento espetacular. Como diria Galileu Galilei, é a Oculata Certitudine, a certeza da evidência que salta à vista.

Galileu? Puxa vida, eu sou arcaico mesmo. Vou ter mesmo que esquecer Copérnico e me render ao fato de que o mundo gira em torno sim dos nossos umbigos.

Feliz Ano Novo pra todos vocês. Eu ainda estou ruminando essa história.

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