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É profissional de internet desde 1996 e passou pelas maiores agências e empresas do país: Wunderman, AlmapBBDO, AgênciaClick, Banco Real ABN AMRO, Microsoft Brasil. É criador da \"Usina.com\", portal focado no mundo online, e do \"Radinho de pilha\" (www.radinhodepilha.com), comunidade de profissionais da área. E-mail: renedepaula@gmail.com
Espelho, espelho meu
Pra onde eu remo agora? - 24/11/2015
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Você é um romântico incurável? Eu sempre fui, de romantismo eu entendo, e se tem algo que dezoito anos no mercado me ensinaram é que o tal romantismo incurável... tem cura.

Má notícia? Só se a tal cura fosse incurável, mas parece que não é.

Quando eu resolvi mergulhar de cabeça nessa história de digital o digital era tão rasinho que só sendo muito romântico pra não ter medo de quebrar o pescoço. O que eu vi no tal do digital? Vi todos os meus sonhos libertários de democracia, auto-expressão, horizontalidade, transparência, diversidade, fecundidade, respeito, empoderamento... Pra uma pocinha de nada até que vi coisa demais lá dentro.

Faltou, como sempre, lembrar dos gregos. Narciso, vaidosíssimo, vê num lago tranquilo seu próprio reflexo. Apaixonado por si mesmo, mergulha na sua imagem e morre. Well, eu não morri, mas hoje assumo que se eu me iludi com alguma coisa foi por não ter reconhecido o quanto eu estava projetando no tal de digital todos os meus sonhos mais loucos.

Não fui só eu, claro. No começo da internet o que mais tinha eram filósofos, visionários, sonhadores, todos querendo criar um mundo novo... à sua imagem e semelhança. Eu confesso: eu me embriaguei com isso, sem imaginar que um dia haveria ressacas. E os gregos já sabiam: o maior risco, a maior insanidade é a hibris, esse arrebatamento que faz a gente se achar maior que tudo. Lembra do Ícaro? Então.

Um belo dia olhei em volta e a pocinha do digital era um oceano inteiro, poderosíssimo e rico, e eu estava boiando precariamente num bote capenga. Onde estavam os meus sonhos todos? Onde estava a tal nova ordem mundial e a paz e a tolerância e a nova humanidade liberta? Espremendo o olho dava pra ver um sinalzinho disso lá longe, mas talvez fosse miragem. O marzão à minha volta era movido por sonhos diferentes dos meus, bilhões de sonhos de todos os tipos, dos mais frívolos aos mais bizarros.
O digital que era o espelho dos meus sonhos bobos era agora palco de todos os sonhos do mundo, e cada um estava usando o digital à sua imagem e semelhança. Que ressaca.

Caixa de Pandora 2.0. Como eu fui ingênuo. Pra onde eu remo agora?
Não sei se os gregos tinham algum mito pra isso, mas parece que o tempo cura muitas coisas, a menos que você morra antes. Como eu não morri, a tal da ressaca passou. Como curei essa ressaca? Fazendo as pazes com o simples fato de que ninguém pode bater o martelo e impor seu sonho de futuro aos outros. Toda vez que algum maluco acha que tem O Sonho Verdadeiro E Único e Unissex e One-Size-Fits-All, dá zica. Eu tenho meu sonho, você tem o teu, e que os sonhos mais fecundos se combinem e se multipliquem e gerem mais frutos.

Eu continuo semeando um certo futuro, um futuro onde certezas definitivas não têm vez, e assim surgiu o projeto Desaprenda. Ainda é uma sementinha, mas prometo ser um bom jardineiro. Dê uma olhada: http://desaprenda.com

Meus sonhos são frágeis, como quase tudo o que eu prezo é. Capim e erva-daninha não precisam de jardinagem, mas belas flores sim. Espero ter regado um pouquinho teu sonho mais rico.

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