]]>
E-mail
Senha
Manter conectado
É profissional de internet desde 1996 e passou pelas maiores agências e empresas do país: Wunderman, AlmapBBDO, AgênciaClick, Banco Real ABN AMRO, Microsoft Brasil. É criador da \"Usina.com\", portal focado no mundo online, e do \"Radinho de pilha\" (www.radinhodepilha.com), comunidade de profissionais da área. E-mail: renedepaula@gmail.com
Digital e Seleção Natural
Como plataformas evoluem e quem sobrevive - 13/10/2015
Compartilhe no Facebook!Compartilhe no Facebook!

Experiência a gente ganha fazendo... experimentos, e eu vivo fazendo experimentos. Hoje mesmo publiquei pela primeira vez um artigo em inglês lá no Linkedin, quero ver no que dá me aventurar num território literalmente estrangeiro.

Como experimentos só valem se tivermos algo pra comparar, aqui está o mesmíssimo texto em português. Depois eu conto pra vocês como cada artigo "performou" ;)

Se eu escrever em inglês, será que as minhas ideias terão uma chance melhor de se reproduzir longe de casa? Em termos menos pessoais: se as plataformas digitais são as novas savanas, as novas florestas, que mutações dos nossos filhotes culturais tão queridos vão bombar e prosperar?

A maior parte do que a gente lê e aprende (e "a gente" quer dizer nós profissionais que não vivem nos EUA) parte do princípio de que a era digital, mais ou menos como curau, é basicamente homogênea. Eu já visitei o Vale do Silício algumas vezes: tudo é tão inacreditavelmente favorável que é difícil imaginar que outros lugares (o famoso ROW, Rest Of The World no jargão corporativo) existam e que tenham a audácia de ser diferentes. Quem nunca ouviu um executivão americano dizer aos brados "funcionou nos EUA, tem que funcionar aqui do mesmo jeito", não importa onde esse "aqui" seja?

"Plataformas digitais não são neutras, e se parecem neutras é sinal do quanto se sofisticaram e se adaptaram"

Lamento informar, mas se o digital é complicado, a realidade é uma encrenca: tudo o que envolve gente é complexo, e complexidade exige uma postura diferente. Complexidade significa que seja o que for que funciona "lá" (EUA, Vale do Silício, Stanford) não vai necessariamente "performar" do mesmo jeito no Coração das Trevas.

(Pensando bem... o Joseph Conrad, autor do Coração das Trevas, era polonês e escreveu em inglês; quem sabe minha ideia não foi tão ruim assim?)

Qual é a graça de colocar em discussão aspectos culturais e locais se nós hoje somos quase todos cidadãos de plataformas globais onde bilhões de humanos alegremente dançam conforme a música criada por um bando de garotos californianos que fugiram da escola? Essa é uma conversa furada, certo? Espero que não. Para empresas tecnológicas que estão navegando em mares nunca dantes navegados, isto não é mais o Kansas (nem Mountain View).

Não se preocupe, eu já aprendi a lição: empreendedores digitais não estão nem aí pra bichos pesadões e lentos como Antropologia e Sociologia, esses paquidermes estão fritos na era dos velociraptors causando disrupções no Tiranossauros-Rex. Falemos então de luta pela vida, da sobrevivência dos mais adaptados, garras, vísceras, triunfos. Vamos botar o Darwin na roda.

Plataformas digitais não são neutras, e se parecem neutras é sinal do quanto se sofisticaram e se adaptaram. Plataformas digitais talvez sejam predadores lutando pela primazia na pirâmide alimentar, mas deixemos isso de lado por um momento e vamos encará-las como ambientes onde nossas expressões vivem.

Todos queremos ser ouvidos, certo? Todos queremos que nossas ideias e sentimentos se multipliquem nesse novo mundo que parece tão acolhedor e conveniente. Apesar das nossas melhores intenções, porém, lá fora é uma selva? ou eu deveria dizer um deserto onde as nossas sementes tão preciosas caem na areia e morrem?
"Algoritmos são a nova seleção natural"

Nessas plataformas coração-de-mãe onde a expressão humana parece encontrar suas condições perfeitas, uma mão invisível decide o que brota e o que murcha: algoritmos. Se o negócio do facebook depende de pessoas interagindo com o conteúdo criado por outras pessoas, quanto mais e quanto mais rápido essas interações acontecerem, melhor. Aquele teu post longo, profundo e rebuscado que expressa toda a riqueza e complexidade da tua alma certamente merece um prêmio Nobel de literatura, mas para um algoritmo focado em otimizar a multiplicação viral, ele é a receita para entrar em extinção. Se você conseguir de alguma maneira sintetizar o sentido da vida numa imagem impactante com uma frase brega que todos vão adorar compartilhar, aí todas as bênçãos do algoritmo cairão sobre a tua cabeça.

Algoritmos são a nova seleção natural. Ok, eles não são naturais, mas eles estão dominando tudo de uma forma tão sutil que viraram nossa segunda natureza.

Essa nova seleção natural não é tão poderosa assim, porém. Culturas e sociedades e países e comunidades são ambientes complexos com o poder de punir ou premiar as plataformas invasoras que se adaptam ou não às regras locais, e os geeks na Costa Oeste devem estar começando a se tocar que não é tão fácil assim domesticar humanos. Eu trabalhei no Yahoo e na Microsoft tempo suficiente para sacar que gente adota tecnologias à sua imagem e semelhança, e a mesma plataforma que bomba no Brasil pode fazer feio no Japão.

E qual o sentido de se associar tecnologia com seleção natural? Simples: evolução não tem xongas a ver com progresso. Progresso é uma esperança humana, evolução é um fato cruel. Progresso é uma questão de valores, e valores não são universais e? ninguém discute mais valores. Nossa fé cega no digital como motor do progresso pode estar escondendo o fato de que as coisas podem estar evoluindo de uma maneira que ameaça alguns dos nossos valores mais caros.

Se essa analogia toda te parece obscura, pense em todos os executivos que conseguem sobreviver e prosperar mesmo quando a empresa é atingida por um meteoro. Eu aposto que não foi um pensamento prazeroso ;)

Compartilhe no Facebook!Compartilhe no Facebook!

Comentário(s)