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Design e sustentabilidade
Entrevista exclusiva com Bruno Porto
Por Tiago Bosco em 23/09/2013
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Sair do Brasil para trabalhar nos EUA ou na Europa seria comum para um profissional de renome como você. Mas o que leva um consagrado designer brasileiro se aventurar pelo outro lado do mundo, mais precisamente em Xangai, na China?

Depois de quase seis anos morando no país mais populoso do mundo, Bruno Porto nos conta sobre esta experiência, sobre o mercado de criação na Ásia e seu engajamento com as questões de sustentabilidade. Ele fala também sobre sua participação na organização de grandes eventos nacionais e projetos futuros na área literária. Confira!

"Trabalhar e lecionar design na China também contribuiu bastante para que eu aprofundasse nas questões relativas à sustentabilidade"


WIDE Em 2006, você rumou para a China e por lá ficou quase seis anos trabalhando. Como os brasileiros são recebidos no país?
BRUNO PORTO
Vivi em Xangai entre 2006 e 2012, e posso dizer que passei por três momentos diferentes no que se refere a relação da China com os estrangeiros. Isso pode ser exemplificado através da relação que os restaurantes têm conosco, especialmente em uma metrópole como Xangai que, de seus 23 milhões de habitantes, tem cerca de 400.000 laowai - a palavra chinesa para "gringo". Até os Jogos Olímpicos de 2008 você praticamente não via cardápios escritos em inglês, o idioma ocidental vigente. Entre 2008 e a feira mundial Expo Shanghai 2010, que recebeu cerca de 90 milhões de visitantes em seis meses, já havia cardápios em inglês e muitos relativamente bem traduzidos. E a partir de 2010, apenas os botequinhos muito chinfrins não tinham um funcionário que falasse inglês. Ou seja, a China sempre esteve em um processo crescente de abertura para os estrangeiros. A questão é que, assim como nós mesmos não diferenciamos bem a cultura dos povos nórdicos, árabes ou asiáticos, descambando para os habituais clichês, para boa parte dos chineses o Brasil é apenas mais um país estrangeiro - que joga bem futebol. Não há, de uma forma geral, um "reconhecimento" por ser brasileiro - em todos os restaurantes chiques e lounges de Xangai se escuta bossa nova e toma-se caipirinha, mas para os chineses é apenas jazz e um "drink latino".

Um fator que inibe os profissionais brasileiros de criação migrarem para a China é o desconhecimento da cultura e do modo de vida chinês, se comparados a de outros países ocidentais, ou mesmo ao Japão, com o qual o Brasil mantém laços há mais de um século. Mas isso não significa que não existam profissionais brasileiro por lá. Pude conviver com criativos de muitos lugares - como São Paulo, Paraná, Mato Grosso, Rio de Janeiro, Pernambuco - como o publicitário Rafael Freire, que foi escolhido no The Big Won Report de 2009 o #1 Copywriter in China e #3 Worldwide; o ilustrador Fellipe Martins, que desenvolve personagens para a empresa chinesa de games Spicy Horse; e o curador e produtor cultural Braulio Flores, que nos ajudou a montar as exposições DINGBATS BRASIL (2009), ILLUSTRABRAZIL! (2011) e a 9ª Bienal Brasileira de Design Gráfico em Pequim e Xangai, onde foi vista por mais de 200 mil visitantes de 50 países.

WIDE Em sua opinião, o mercado de criação chinês possui alguma peculiaridade que o Brasil ainda é carente e precisa avançar? Qual? O que você trouxe de mais positivo deste intercâmbio?
BRUNO PORTO
Há um pragmatismo no modo de se fazer design na China que acredito que possa ser transposto para nossa prática comercial e ser extremamente benéfico para o mercado. Uma das características da China é buscar sempre o melhor aproveitamento - de tudo, como tempo, espaço, material etc., já que há aquele "mundaréu" de gente - e muitas destas estratégias se encaixariam perfeitamente no contexto brasileiro. Trabalhar e lecionar design na China também contribuiu bastante para que eu aprofundasse nas questões relativas à sustentabilidade. Diante dos problemas e restrições que uma sociedade com aquela complexidade enfrenta, fica bem mais claro que a função do designer - seja gráfico, industrial, interativo etc. deve obrigatoriamente passar por estas preocupações. Por incrível que pareça, há uma China que se preocupa muito com a preservação de seus recursos, embora aconteçam desperdícios criminosos. Estes muitas vezes são causados por pequeninas decisões, mas que ganham proporção colossais diante do tamanho da população e dos centros urbanos. Por outro lado, muitas das soluções também passam por pequenas mudanças de hábitos e estratégias para que estas aconteçam. Entender os problemas chineses - mesmo os ainda não solucionados - é de grande valor para o designer brasileiro.

"Entender os problemas chineses - mesmo os ainda não solucionados - é de grande valor para o designer brasileiro"


WIDE Recentemente você coordenou dois dos mais importantes eventos na área de Design no Brasil e na América do Sul: a Quinta Bienal de Tipografia Latino-Americana TiposLatinos e a 10ª Bienal Brasileira de Design Gráfico. Como encara tamanha responsabilidade?
BRUNO PORTO
A responsabilidade de se fazer um evento de design no século XXI passa obrigatoriamente por pensá-lo de forma sustentável, eliminando hábitos prejudiciais ao nosso sistema. Em ambas as bienais pude colocar em ação muitas das práticas sustentáveis que vinha ensaiando na China.

Divido a coordenação do Comitê Tipos Latinos BR com o Fabio Lopez, e em exatos sete meses levamos a TL2012 a sete cidades - Rio de Janeiro, Recife, Caruaru, Belo Horizonte, São Paulo, Bauru e Brasília - para um público estimado em 65 mil pessoas. Dadas as distâncias continentais do nosso país, privilegiamos imprimir os painéis nas próprias cidades para estimular as indústrias e mão-de-obra locais, além de economizar recursos naturais e financeiros com o transporte - exceto em casos de localidades muito próximas como Recife e Caruaru, ou São Paulo e Bauru. A programação paralela, orquestrada pela Marina Chaccur, promoveu ainda um total de 30 palestras, cinco mesas redondas, quatro workshops e nove lançamentos, entre outras atividades, sempre privilegiando os profissionais locais, pelos mesmos motivos.

Já na Bienal da ADG a postura sustentável foi mais ampla. A inscrição, pagamento, envio dos projetos e julgamento da primeira fase foram feitos inteiramente pela internet, gerando uma economia brutal dos mais variados recursos, de impressões, caixas, fitas adesivas, cola, combustível e postagem. Outra decisão de caráter sustentável e estratégico foi o catálogo ter se tornado um app disponibilizado gratuitamente para download. Além da maior capacidade e versatilidade em armazenar informações, imagens e textos dos projetos - incluindo os digitais - e da Bienal, facilita sua promoção e possíveis itinerâncias no exterior. A própria montagem no Memorial da América Latina, em junho de 2013, não utilizou nenhuma prancha impressa - que seriam descartadas imediatamente em seguida - se valendo ou dos próprios projetos expostos para manuseio, ou de projeções controladas por iPads inseridos na cenografia.

WIDE Autor de "Vende-se Design" (2011, 2AB Editora) e "Memórias Tipográficas das Laranjeiras, Flamengo, Largo do Machado, Catete e adjacências" (2003, 2AB Editora), e co-autor de "Logotipo X Logomarca" (2012, 2AB Editora), "Porto+Martinez "1996>2004 (2005, J.J.Carol) e "Asian Graphics NOW!" (2010, TASCHEN), você pensa em publicar outras obras? Quais serão seus próximos passos?
BRUNO PORTO
Além de alguns projetos de livros com temas não ligados inteiramente ao design, estou trabalhando lentamente em duas continuações do "Memórias Tipográficas das Laranjeiras, Flamengo, Largo do Machado, Catete e adjacências", que completou uma década este ano - "Memórias Tipográficas das Histórias em Quadrinhos", com um levantamento de gibis do século XX feito conjuntamente com o cartunista e editor Ota, e "Shanghai Loves Typography", um apanhado de quatro anos de pesquisas tipográficas dos meus alunos chineses pelas ruas de Xangai e adjacências. E, a passos mais curtos ainda, há um livro sobre mascotes chineses que venho desenvolvendo com o Julius Wiedemann, editor da Taschen, em meio aos muitos projetos e colaborações que vivemos assuntando, e um projeto embrionário de mapeamento nacional junto ao designer Gustavo Piqueira, da Casa Rex.

"A responsabilidade de se fazer um evento de design no século XXI passa obrigatoriamente por pensá-lo de forma sustentável, eliminando hábitos prejudiciais ao nosso sistema"


WIDE Atualmente você mora em Brasília, onde coordena o curso de Design Gráfico do Centro Universitário IESB. Como avalia esta nova geração de designers brasileiros? Quais as principais características que você, enquanto docente, percebe nestes jovens?
BRUNO PORTO
Nesta edição da Bienal vi trabalhos excelentes dos coletivos e pequenos estúdios, principalmente fora do eixo Rio-São Paulo. De uma maneira geral, é um pessoal tão legal, esperto, empolgado e perdido quanto o da geração passada, e da anterior. Talvez uma diferença mais tangível seja que conseguem raciocinar e interagir em uma dinâmica diferente, na qual o virtual é muito mais real e ativo que o que acontece no dito mundo real. Há muito menos fronteiras geográficas para eles, o que é benéfico para toda uma geração de designers que está se formando fora dos grandes centros urbanos - o portfólio de um estúdio de design em Amsterdam ou Pequim pode ser mais acessível que o de um de sua própria cidade. Como quase tudo na vida - e os álbuns do Pink Floyd são a exceção, como diz a piada - há nisso um lado bom e um lado ruim. O sujeito é capaz de assimilar com mais facilidade soluções e linguagens de outras culturas e contextos, mas não deve se tornar um estranho para sua própria realidade. Para escrever o "Vende-se Design", conversei e analisei portfólios de cerca de duzentos profissionais de todo o país, e existem muitos "Brasis" com realidades e necessidades diferentes de design.

Os desafios de um designer em Brasília são diferentes dos de um designer no Rio de Janeiro e Xangai, cidades onde lecionei, respectivamente, por dez e quatro anos, por conta de seus mercados específicos. O que estou achando maravilhosamente desafiador no curso do IESB é construir um programa em parceria com os alunos e professores que atenda as necessidades regionais, mas que sirva também como um trampolim para voos mais altos daqueles que quiserem se aventurar mundo afora.

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